Um
Esporte Ameaçado
Por André Ilha
Praticado
eventualmente no Brasil desde o século
XIX, o
montanhismo, termo que engloba caminhadas e escaladas em rocha, ganhou
impulso
com a histórica conquista do Dedo de Deus, em Teresópolis, em 1912,
feito que
teve repercussão nacional à época. Pouco depois, em 1919, era fundado o
Centro Excursionista Brasileiro, primeira agremiação do gênero em toda
a América
Latina, e desde então o esporte vem crescendo de forma ininterrupta,
reunindo
hoje milhares de adeptos que o praticam, como forma geral, dentro de
elevados
padrões técnicos. Boa parte destes montanhistas encontra-se filiada a
dezenas
de clubes, quatro federações estaduais e, agora, também à Confederação
Brasileira de Montanhismo e Escalada – CBME, todos imbuídos do
propósito de
difundir o esporte dentro de padrões de segurança que nada devem aos
mais avançados
centros de escalada em todo o mundo.
Além
disso, os montanhistas, também como norma
geral,
possuem elevada consciência ecológica e, cientes do impacto que a
presença
humana pode causar nos ambientes naturais, desenvolveram, em parceria
com o
Ministério do Meio Ambiente, um conjunto de recomendações para a
prática do
montanhismo de mínimo impacto. Por amor às montanhas que freqüentam,
eles se
engajaram diretamente na luta pela criação de muitas unidades de
conservação
importantes em maciços rochosos como, por exemplo, o recém-criado
Monumento
Natural Municipal do Pão de Açúcar e a APA da Pedreira, em Minas
Gerais, e
outras mais foram instituídas por sua inspiração, como é o caso do
Parque
Estadual dos Três Picos, na Região Serrana do Rio de Janeiro. E, num
bem-sucedido esforço de auto-regulamentação de sua atividade,
seminários de
mínimo impacto em áreas específicas vêm sendo realizados, provando ser
possível
conciliar o lazer com a preservação do meio ambiente. Entretanto, a
despeito
do vigor apresentado por este esporte amador que, como poucos,
sintetiza a
comunhão do homem com a natureza, e da inegável responsabilidade com
que ele
é praticado hoje no Brasil, tanto em termos de segurança física quanto
ambiental, alguns fatos recentes têm ameaçado a sua prática
tradicional,
mormente no interior de certas unidades de conservação.
O
primeiro deles é a obrigatoriedade de contratação,
em
alguns parques nacionais, dos chamados “condutores de visitantes”,
moradores
do entorno destas unidades que receberam uma capacitação superficial
para
levar turistas em certos destinos fáceis e pré-determinados no interior
das
mesmas. É certamente desejável que tal oportunidade de emprego e renda
seja
disponibilizada aos jovens locais, mas ao obrigar montanhistas
experientes e
responsáveis a desembolsar uma quantia nem sempre pequena para ter a
seu lado
um desconhecido menos experiente que eles, que os levará a destinos
repetidos e
tecnicamente inexpressivos, os gestores destas unidades, por não tê-los
distinguido de turistas citadinos leigos, aniquilam o montanhismo de
alto nível
tal como ele é praticado em todo o mundo. A existência de um serviço de
condutores de visitantes opcional em todos os parques
e unidades afins parece-nos o mais recomendável, uma
vez
que
a grande maioria dos visitantes de fato precisa de alguém que lhes
permita
tirar o máximo proveito de sua permanência, proporcionando-lhes a
necessária
segurança física aliada a certeza do desfrute de certos atrativos
naturais, ao
passo que os montanhistas tradicionais, como qualquer praticante dos
chamados
esportes de aventura, estão em busca do desafio e da dificuldade e
dispostos a
aceitar a incerteza de resultados que caracterizam tais atividades.
Públicos
distintos, portanto, aos quais se deve proporcionar tratamento
distinto, até
porque o lazer é um dos objetivos precípuos dos parques e unidades
afins,
conforme a lei que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de
Conservação –
SNUC
Já em
outras unidades partiu-se para o
estabelecimento de
um sistema de concessões em principio bastante positivo quando se trata
de
serviços auxiliares, como bares, lanchonetes e venda de souvenires.
Entretanto,
algumas extrapolaram, cedendo à pressão de empresários do setor no
sentido de
que a prática de quaisquer atividades esportivas ou de lazer tenha que
se dar,
necessariamente, através da contratação de uma empresa que as
monopolize
naquela unidade, mediante licitação. Em outras palavras, ensaiam
terceirizar não
apenas os serviços opcionais, mas também o próprio uso público da
unidade,
privatizando o direito constitucional de desfrute dos atrativos
naturais de cada
parque pelos cidadãos! Uma vez mais a disponibilização opcional de tais
serviços
para os turistas inexperientes que aportam nestas
unidades aos milhares e a cada ano em busca de
alguma emoção
configura-se como correto – serviços estes que, por sinal, serão
melhores
caso a concorrência não seja suprimida e um certo número de operadores
possam
atuar simultaneamente.
Por todo
o exposto, urge que as autoridades ligadas
às áreas
de meio ambiente, esporte e turismo avancem juntas na compreensão de
que
existem duas espécies completamente distintas de usuários das unidades
de
conservação. A primeira, bem mais numerosa, é a do turista convencional
que,
atraído pelas belas imagens destas áreas naturais, deseja conhecê-las
de
forma rápida e dirigida e que se valerá dos serviços postos à sua disposição por guias locais ou por
operadoras de
turismo para maximizar os resultados de sua visita. Já a outra, muito
menor, é
constituída por pessoas que buscam uma experiência mais intensa no
convívio
com a natureza, envolvendo descoberta, desafio, auto-superação; pessoas
dispostas a suportar a frustração de eventuais fracassos, mas que por
outro
lado desfrutam as recompensas interiores conquistadas por sua
habilidade, técnica
e perseverança, sem assistência externa. Isto tudo, claro, dentro da
estrita
observância da legislação ambiental e assumindo plenamente os riscos
inerentes a estas atividades, o que implica isentar por completo os
gestores de
tais unidades, mediante termo próprio, na eventualidade de um acidente.
No
Ministério dos Esportes esta diferenciação já foi
bem compreendida, e na área ambiental a atual administração do Parque
Nacional da Serra dos Órgãos vem desenvolvendo um modelo de
relacionamento com
os montanhistas amadores que pode ser refutado como exemplar. Resta,
contudo,
que este modelo seja devidamente apreciado e estendido a outras
unidades pelo
IBAMA e pelo próprio Ministério do Meio Ambiente para que o montanhismo
tradicional independente não seja banido dos principais maciços do
país,
quase todos inclusos em unidades de conservação, em benefício exclusivo
dos
empresários e de outros segmentos que se aproveitam comercialmente do
boom dos
esportes de aventura.
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