CONSIDERAÇÕES A
CERCA DO FENÔMENO “CABEÇA D’ÁGUA”
por Jesus Carlos Coutinho Barcia e Jorge
Soares Marques
Com
certa frequência, nos meses de verão, temos
conhecimento de casos em
que pessoas,nas margens de rios e riachos, que provem de cursos
d’água
com cabeceira em áreas de encostasde altos declives, são
colhidas de
surpresa por enxurradas inesperadas, vindo a morrer
emconseqüência
desse fato. Este fenômeno é conhecido pelo nome de
“cabeça d’água”.Em
diferentes setores da Serra do Mar este fenômeno ocorre, fato que
é
atestado inclusive pela existência na região de
inúmeros rios
identificados pelo nome de “Roncadores”, em alusão aobarulho
emitido
pelo deslocamento violente de grandes volumes de água.
Este
fenômeno pode ocorrer em qualquer bacia de drenagem, quer ela
esteja em
suascondições naturais quer ela possua
alterações provocadas pela
ocupação humana. A ação
daocupação humana em bacias de drenagem, via de
regra, tende a intensificar a grandeza dessesfenômenos ou
até mesmo
faze-los aparecer em áreas em que antes não existiam.
Esta
açãointerfere principalmente na forma, no volume e na
intensidade do
escoamento das águas.
A
Serra dos Órgãos, no Estado do Rio de Janeiro,
constitui-se num desses
setores da Serrado Mar, bastante predisposto à presença
deste tipo de
evento, cuja ocorrência, em diferentesintensidades, já foi
detectada
diversas vezes. Além do potencial inerente as suas
característicasnaturais, somam-se a ele diversas
condições favoráveis
produzidas pela crescente ocupaçãohumana, capazes de
deflagrar a
ocorrência deste fenômeno.O objetivo principal deste
trabalho é o de
criar uma fonte acessível de
informaçõespertinentes ao fenômeno “cabeça
d’água”, que possa com sua divulgação contribuir
para alertar,criar
atitudes e ações preventivas.Em áreas de riscos
ambientais é comum
desenvolverem-se conhecimentos e ações, decaráter
intuitivo, que
previnam ou minimizem conseqüências. Isto se aplica de forma
ampla
àspopulações locais que convivem com essas
situações. As pessoas que
buscam chegar a essasáreas à procura, por exemplo, de
lazer, quase
sempre desconhecem a existências de riscos, o queas transforma
potencialmente nas principais vítimas.
CARACTERÍSTICAS
GERAIS DO FENÔMENO
O
fenômeno ocorre quando uma chuva localizada, de grande
intensidade,
projeta-se sobreuma bacia de drenagem e nela existam
condições
favoráveis ao rápido escoamento superficial,fazendo com
que as águas
concentrem-se em pouco tempo nos canais fluviais.Os declives elevados
nas paredes dos vales adjacentes aos canais fluviais podem
serconsiderados como os principais responsáveis pelo escoamento
rápido
das águas. Entretanto,outras condições direta ou
indiretamente podem
agir, de forma ativa ou passiva, para intensificar oprocesso. A
presença de todas as condições favoráveis,
dentro de uma mesma bacia
dedrenagem, pode fazer com que haja ali maior freqüência de
ocorrência
do fenômeno ou até mesmofazê-lo assumir uma grandeza
catastrófica.Além
do declive podem ser enumeradas, entre outras, as seguintes
condições
quefavorecem o processo de escoamento superficial das águas
pluviais: a
presença de afloramentosrochosos que funcionam como
superfícies
impermeáveis; ocorrência de solos pouco
permeáveis;presença de
controles de estrutura geológica na rede de drenagem; fortes
amplitudes
de relevo;presença de colúvios com diferentes graus de
permeabilidade;
a forma da bacia de drenagem e opróprio arranjo da rede de
canais
principais; as relações de equilíbrio entre as
formas do relevo eos
processos geomorfológicos atuais; o nível de
saturação de água do solo
em função de chuvasantecedentes; o rápido
empapamento da superfície do
solo, no momento de uma chuva intensa,que inviabilize uma maior
infiltração; a impermeabilização do solo
pelas construções de valas
egalerias pluviais que redirecionem e concentrem o escoamento pluvial;
a presença de obstáculos,naturais ou não, que
represem águas;
descontinuidades nos valores dos gradientes dos canais dedrenagem e as
suas próprias formas.
“Cabeça
d’água” no Rio Soberbo
A
bacia de drenagem do Rio Soberbo, em seu alto e médio curso
localiza-se
na Serra dosÓrgãos no Estado do Rio de Janeiro. Grande
parte da área
desta bacia encontra-se dentro doslimites do Parque Nacional da Serra
dos Órgãos. Suas nascentes estão na borda superior
da serra,seu vale,
tanto no alto quanto no médio curso possui paredes com altos
declives e
seu perfillongitudinal, nessa área, desenvolve-se numa
extensão
relativamente curta (aproximadamente 5km), face a forte amplitude do
relevo, cerca de 2000 metros, o que confere ao seu canal principalum
elevado gradiente.A ocorrência do fenômeno “cabeça
d’água” tem sido
constatado com uma certa freqüêncianesta
bacia.Através de relatos e
observações empíricas foi possível chegar
as seguintes constatações:os
eventos ocorrem principalmente entre os meses de outubro a janeiro; a
maior freqüência temsido nos meses de janeiro; a
incidência de maior
volume de água tem sido no mês de janeiro; ofenômeno
acontece à tarde,
dificilmente à noite ou pela manhã.As
condições do tempo que favorecem
o surgimento do fenômeno, ou mesmo seudesenrolar são
percebidos de
forma diferente em função da posição do
observador, caso ele estejana
porção superior ou média do vale.O surgimento das
chuvas localizadas na
Serra do Mar pode originar-se com a subida pelaborda da serra de ar
quente e úmido, proveniente das áreas baixas, que vai se
resfriando(aproximadamente a temperatura baixa 1º grau a cada 100
metros de altitude) e acaba porcondensar-se. Caso existam
circunstâncias atmosféricas não dissipadoras e a
ascensão do arquente e
úmido for muito forte, a chuva pode apresentar-se com um
temporal
formador da “cabeçad’água”
.A
Serra dos Órgãos é um desses locais. Em seu
contato com os terrenos
baixos litorâneosseu clima é quente e úmido, e em
sua borda superior
frio e seco.
a)
Parte Inferior ou Média do Vale – O céu, na sua maior
porção costuma
estar limpo, atemperatura é elevada e o ar quente e abafado.
Há intensa
evapotranspiração e lâminas d’águasão
observadas em qualquer
superfície. As trovoadas ouvidas nesta região oriundas da
formaçãode
temporal na cabeceira são perfeitamente audíveis, dado as
características da facilidade detransmissão do som, pela
peculiaridade
da disposição do relevo – o vale. A visão
panorâmica parao topo do vale
é excelente podendo se ver perfeitamente a
formação de nuvens
concentradas nascabeceiras. O início do temporal é visto
claramente
porque há condições de excelente
visibilidade.Não foi observado até a
presente data, o fenômeno “cabeça d’água” em
períodos com
tempoencoberto totalmente pro nuvens, ou chovendo regularmente, ou que
não apresenta-se ascaracterísticas citadas no quadro
inicial como
período quase imediato a ocorrência do fenômeno.O
barulho do
deslocamento da “cabeça d’água” pelo canal principal pode
confundido
com osom de trovoadas. Não há necessidade de estar
chovendo ou mesmo
ter chuva intensa na área, ocanal fluvial principal comporta-se
como
meio sobre o qual escoa a “cabeça d’água”, provenientedas
cabeceiras,
traduzindo-se estes nos maiores perigos para as pessoas que
inadvertidamenteestejam ali presentes.
b)
Parte Superior ou Cabeceira do Vale – A formação de
nuvens concentradas
nesta regiãoaumenta até o movimento que é iniciada
a precipitação, em
larga escala e intensamente,crescendo rapidamente o volume
d’água do
rio principal que é engrossado pelo caudal em excessodos muitos
afluentes secundários, direcionados para a calha principal. Esta
massa
d’água,concentrada em um espaço de tempo menor do que o
que lhe permita
fluir montanha abaixo,assume velocidade crescente, no seu percurso,
arrastando no seu caminho, animais, pessoas,blocos de rocha,
árvores ou
qualquer outro obstáculo, não fixo. Geralmente, a massa
d’água formauma
“parede”, frente ou “cabeça d’água”, já tendo sido
observadas situações
em que ela atingecerca de 4,5 metros de altura. Sua
duração nunca é
superior a 4 horas, mas geralmente diminui deintensidade nas duas
primeiras horas. As pessoas que se acidentaram em
conseqüência
daocorrência deste fenômeno relataram que encontraram as
seguintes
dificuldades: a) percepção doruído provocado pela
“cabeça d’água” muito
próximo do fato; b) dificuldade de se retirar do localdevido ao
tipo de
terreno, geralmente acidentado.
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